O Brasil tem advogados demais ou aproveita mal os advogados que tem?

O Brasil se acostumou a repetir que tem advogados demais. A dimensão do mercado ajuda a alimentar essa percepção: são quase 1,4 milhão de profissionais, segundo o primeiro Perfil ADV, estudo realizado pela FGV a pedido do Conselho Federal da OAB. A mesma pesquisa, que ouviu 20.885 advogados, revela um dado mais incômodo: 64% obtêm até cinco salários mínimos mensais com o exercício da advocacia e 34%, até dois. Além disso, 72% declaram atuar de forma autônoma.


Esses números costumam levar a uma conclusão rápida: há profissionais demais para mercado de menos. Não estou convencido de que esse seja o diagnóstico completo. O Brasil pode ter uma enorme quantidade de advogados e, ao mesmo tempo, aproveitar muito mal o capital intelectual que formou. Quando tantos profissionais disputam os mesmos tipos de trabalho, com pouca diferenciação e baixa capacidade de acessar áreas mais sofisticadas da economia, o problema não está apenas no tamanho da profissão. Está também na forma como preparamos, lideramos e desenvolvemos essas pessoas.


A faculdade ensina Direito. O Exame da Ordem verifica conhecimentos necessários para o exercício profissional. Mas quem ensina o advogado a construir uma carreira? Ainda formamos profissionais com excelente domínio técnico que chegam ao mercado sabendo pouco sobre gestão, finanças, negociação, tecnologia, relacionamento com clientes e desenvolvimento de negócios. Muitos começam a advogar por conta própria não necessariamente porque escolheram empreender, mas porque esse foi o caminho disponível. O dado de que 72% da advocacia brasileira atua de forma autônoma deveria nos fazer discutir também que tipo de suporte estamos oferecendo para que esses profissionais transformem conhecimento jurídico em atividade economicamente sustentável.


É aqui que a liderança dos escritórios precisa assumir uma responsabilidade maior. Durante muito tempo, prevaleceu na advocacia a ideia de que um bom advogado aprenderia observando profissionais mais experientes, acumulando horas de trabalho e demonstrando excelência técnica até estar pronto para assumir responsabilidades maiores. Esse modelo já é insuficiente. Liderar um escritório também significa formar pessoas, identificar vocações, abrir caminhos de especialização, ensinar visão de negócio e mostrar ao profissional como seu conhecimento se conecta aos problemas que empresas e sociedade precisam resolver.


Essa discussão é ainda mais relevante porque o mercado jurídico não está parado. Inteligência artificial, proteção de dados, cybersecurity, compliance, mercado de capitais, M&A, infraestrutura, energia, governança e novas regulações estão criando ou ampliando demandas por conhecimento jurídico especializado. A economia ficou mais complexa, não menos. Por isso, dizer simplesmente a um jovem que “há advogados demais” pode esconder uma questão mais importante: advogados demais fazendo o mesmo ou profissionais de menos preparados para fazer o que o mercado passou a exigir?


Também precisamos rever o que entendemos por valorização da advocacia. Valorizar a profissão não é proteger profissionais da competição nem preservar modelos de trabalho que perderam eficiência. É criar condições para que bons advogados consigam desenvolver competências, encontrar mercados nos quais possam gerar valor e ser adequadamente remunerados por isso. E isso exige formação contínua, mas exige sobretudo liderança. Um sócio não deveria medir seu legado apenas pela carteira que construiu ou pelo faturamento que gerou, mas também pela quantidade de profissionais que ajudou a desenvolver.


Há uma responsabilidade individual, evidentemente. Nenhuma organização pode construir a carreira de alguém que não assume protagonismo sobre a própria formação. Mas existe uma diferença enorme entre exigir protagonismo e deixar profissionais entregues à própria sorte. Escritórios que desejam permanecer relevantes precisam criar ambientes nos quais as pessoas compreendam onde podem crescer, quais competências precisam desenvolver e como podem participar da geração de valor para o cliente e para a própria organização.


Talvez, portanto, a pergunta sobre o número de advogados esteja mal formulada. O desafio brasileiro não é apenas administrar a abundância de profissionais. É evitar o desperdício de uma enorme quantidade de conhecimento, talento e anos de formação. Uma profissão não se valoriza tornando-se mais escassa. Valoriza-se quando seus profissionais se tornam mais preparados, mais relevantes e capazes de ocupar espaços em que seu conhecimento gera valor.